Tribunal de Justiça de MT
Emprega Labs é lançado em Mato Grosso com assinatura de pactos por trabalho e ressocialização
Publicado em
19 de maio de 2026por
Da Redação
Mato Grosso deu mais um passo na ampliação das políticas de ressocialização por meio do trabalho com o lançamento oficial do Emprega Labs Mato Grosso, realizado nesta terça-feira (19) no Auditório Desembargador Gervásio Leite, no Tribunal de Justiça de Mato Grosso (TJMT). A iniciativa une o Poder Judiciário, o Poder Executivo, o setor produtivo e instituições nacionais para estruturar ações permanentes de empregabilidade voltadas a pessoas privadas de liberdade e egressas do sistema prisional, como parte da estratégia Pena Justa – Emprega.
O evento reuniu representantes do Conselho Nacional de Justiça (CNJ), Governo do Estado, Ministério dos Transportes, empresários e órgãos ligados ao sistema penal para estruturar os primeiros passos do programa no estado, escolhido como território-piloto do Centro-Oeste. As primeiras vagas do programa estarão vinculadas ao setor de transportes.
O presidente do Tribunal de Justiça de Mato Grosso, José Zuquim Nogueira destacou que a iniciativa representa uma mudança de paradigma no sistema prisional.
“Hoje é um dia lindo, em que damos as mãos para uma nova caminhada que, com toda certeza, será exitosa e transformadora. Precisamos trabalhar para que realmente seja resgatada não só a dignidade do ser humano, mas também a sua reinserção na nossa sociedade. Não há segurança pública sem o processo de ressocialização”, afirmou.
Trabalho e educação como pilares
Supervisor do Grupo de Monitoramento e Fiscalização do Sistema Carcerário e Socioeducativo (GMF/TJMT), o desembargador Orlando Perri reforçou que o trabalho e a educação precisam estar no centro das políticas penais.
“Sem o trabalho e sem a educação, nós não vamos conseguir a recuperação de ninguém que está cumprindo a sua pena. O que nós pretendemos aqui é fazer com que pelo menos a metade – esta é a meta do Conselho Nacional de Justiça no Pena Justa – das pessoas que cumprem pena trabalhem”, declarou.
Representando o CNJ, o coordenador do Departamento de Monitoramento e Fiscalização do Sistema Carcerário e do Sistema de Execução de Medidas Socioeducativas do CNJ (DMF/CNJ), desembargador do Tribunal de Justiça de São Paulo (TJSP) Luís Geraldo Sant’Ana Lanfredi ressaltou que o Emprega Lab propõe uma política pública de segurança baseada em oportunidades.
“Nós estamos envolvendo segurança, segurança sem dar um tiro, segurança sem derramar uma gota de sangue, no sentido de possibilitar que as pessoas realmente possam acreditar em dias melhores”, afirmou, acrescentando que a iniciativa também combate preconceitos históricos sobre a mão de obra prisional.
Mato Grosso como referência nacional
Governador de Mato Grosso, Otaviano Pivetta destacou que o trabalho é um dos instrumentos mais eficientes para transformar a realidade do sistema penitenciário.
“Nós sabemos que não é possível fazer segurança pública sem transformar os nossos centros de detenção em lugares de ressocialização. Realmente, eu não vejo nada mais eficiente do que o trabalho continuado para construir ou para que essas pessoas possam reconstruir suas vidas”, disse.
Representante do Ministério dos Transportes, Ricardo Luís Medeiros Meirelles afirmou que Mato Grosso já se consolida como referência nacional no tema.
“Mato Grosso se destaca como modelo para o país, e dessa forma toda a estrutura já implantada permite que essa política pública se mostre eficiente, eficaz e com uma capacidade bastante grande de reintegração social”, destacou.
O gerente de programas do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, David Marques acredita que as oportunidades de trabalho que passarão a ser ofertadas podem ser meios para uma mudança no cenário da própria segurança pública.
“Oferecendo trabalho, em condições dignas, a gente tem a possibilidade de começar a transformar esse cenário da segurança pública e do ambiente prisional no Brasil”, assegurou.
Inclusão com dignidade
A procuradora-chefe do Ministério Público do Trabalho da 23ª Região, Thaylise Campos Coleta de Souza Zaffani reforçou que o projeto também precisa garantir condições dignas de trabalho.
“Nós estamos procurando trabalho para essas pessoas, mas não qualquer trabalho. Estamos procurando trabalho, mas um trabalho que seja digno. A inclusão produtiva dessas pessoas exige responsabilidade, mas também exige coragem social”, ratificou.
Representando a concessionária Nova Rota do Oeste, Tharley Teixeira anunciou as primeiras oportunidades disponibilizadas pela parceria.
“É o primeiro degrau dessa longa caminhada. Nós estamos com 43 vagas, sendo 40 vagas disponibilizadas pela nossa parceira, que trabalha nas frentes de manutenção da rodovia, que é a SS Trevo, mais três vagas administrativas dentro da sede da Nova Rota do Oeste em Cuiabá”, explicou.
Assinaturas consolidam compromissos
Durante a solenidade, foram assinados três documentos: o primeiro deles foi a Portaria Conjunta que institui oficialmente o Emprega Labs Mato Grosso no âmbito do Comitê Estadual de Políticas Penais; também foi assinada a Carta de Cuiabá, pacto firmado entre instituições públicas e privadas para ampliar vagas e fortalecer a inserção de mão de obra no setor de transportes; e o Termo de Intermediação de Mão de Obra Remunerada.
Reeducandos participaram da agenda
A programação desta terça-feira também contou com a presença de 40 reeducandos que já atuam em atividades laborais fora das unidades prisionais, por meio da Fundação Nova Chance (Funac).
Também participaram da solenidade o ouvidor-geral do Poder Judiciário de Mato Grosso, desembargador Rodrigo Roberto Curvo; a desembargadora Clarice Claudino da Silva; a juíza federal e coordenadora do eixo Trabalho e Renda do Grupo de Monitoramento e Fiscalização do Tribunal Regional Federal da 1ª Região, Maria Rosi Meira Borba; o juiz coordenador do GMF/MT, Geraldo Fernandes Fidélis Neto; o presidente da Assembleia Legislativa de Mato Grosso, Max Russi; o secretário de Estado de Justiça, Valter Furtado Filho; o presidente da Fundação Nova Chance, Winkler de Freitas Teles; a juíza auxiliar da presidência do TRT-23, Leda Borges de Lima; e representantes das empresas parceiras.
Sobre o Emprega Labs
O Emprega Labs faz parte da estratégia Pena Justa – Emprega e funcionará como uma instância estadual de governança voltada à formulação de estratégias de empregabilidade para pessoas privadas de liberdade e egressas do sistema prisional. A proposta envolve a criação de oportunidades por meio do emprego formal, empreendedorismo, cooperativismo e economia criativa.
Autor: Vitória Maria Sena
Fotografo: Alair Ribeiro
Departamento: Coordenadoria de Comunicação do TJMT
Email: [email protected]
Tribunal de Justiça de MT
Vicaricídio passa a ter punição específica e muda resposta da Justiça à violência contra mulheres
Published
1 hora agoon
7 de julho de 2026By
Da Redação
O ordenamento jurídico brasileiro passou a reconhecer o vicaricídio como crime autônomo em abril deste ano. A Lei nº 15.384/2026 incluiu no Código Penal o homicídio praticado contra filhos, familiares ou pessoas com quem a mulher mantém vínculo afetivo ou de cuidado quando o objetivo do agressor é atingi-la psicologicamente. A conduta passou a integrar o rol dos crimes hediondos e fortaleceu os instrumentos de enfrentamento à violência de gênero.
A pena prevista é de 20 a 40 anos de reclusão, podendo ser aumentada de um terço até a metade quando o crime é cometido na presença da mulher que se pretende atingir, contra criança, adolescente, pessoa idosa ou com deficiência, ou ainda em descumprimento de medida protetiva de urgência.
Além de criar um tipo penal, a lei alterou o Artigo 7º da Lei Maria da Penha ao incluir a violência vicária como forma de violência doméstica e familiar. Com isso, a ameaça ou a violência praticada contra filhos, familiares, enteados ou pessoas da rede de apoio da vítima passa a ser considerada na avaliação do risco para concessão de medidas protetivas de urgência.
Caso em MT evidencia a importância da nova legislação
Embora o crime de vicaricídio tenha sido tipificado apenas este ano, situações com essas características acontecem rotineiramente, como no caso do homem de 21 anos que matou o filho de dois anos asfixiado. O crime ocorreu em Sorriso (244 km de Cuiabá), em janeiro deste ano.
Conforme a denúncia do Ministério Público do Estado de Mato Grosso, o crime foi premeditado e motivado pelo inconformismo do investigado com o término da relação e com o fato de a mulher ter iniciado um novo relacionamento. O caso tramita na Justiça e ainda aguarda julgamento.
Embora não possa ser julgado com base na Lei nº 15.384/2026, por ter ocorrido antes de sua vigência, o caso exemplifica uma das formas mais extremas da violência vicária e ilustra o contexto que levou à criação do crime de vicaricídio.
Reconhecimento do crime
Para a juíza Tatyana Lopes de Araújo Borges, da 2ª Vara Especializada de Violência Doméstica e Familiar contra a Mulher de Cuiabá, a principal inovação é o reconhecimento da finalidade do crime. “Agora temos no ordenamento jurídico o reconhecimento de que matar um descendente, um ascendente, um enteado ou qualquer pessoa do convívio da mulher para atingi-la emocionalmente possui uma finalidade específica. Não é apenas um homicídio comum ou qualificado. Temos uma tipificação própria, com pena de 20 a 40 anos, assim como ocorre com o feminicídio”.
De acordo com a magistrada, a tipificação específica confere maior visibilidade a essa forma extrema de violência, facilita a produção de estatísticas e contribui para o aperfeiçoamento das políticas públicas de prevenção. “Quando um crime é tipificado, conseguimos produzir dados, compreender melhor o comportamento do agressor e desenvolver estratégias preventivas mais eficientes”.
Violência que utiliza pessoas próximas como instrumento
O vicaricídio está inserido no contexto da violência vicária, caracterizada pela utilização de filhos, familiares ou pessoas próximas como instrumento para controlar, intimidar ou provocar sofrimento emocional à mulher.
Para a juíza, o reconhecimento da violência vicária na Lei Maria da Penha facilita a identificação de situações de alto risco pelos profissionais que atuam na rede de proteção. “Quando o agressor passa a ameaçar ou agredir filhos, familiares ou pessoas da rede de apoio para intimidar ou exercer controle sobre a mulher, conseguimos identificar com mais facilidade que ela está em situação de risco”.
Na prática, a alteração amplia a atuação da Polícia Civil, do Ministério Público, do Poder Judiciário e das equipes multidisciplinares, que passam a considerar essas condutas na avaliação do risco.
Antes da mudança legislativa, a concessão de medidas protetivas era mais difícil quando a violência não atingia diretamente a mulher. “Agora, se o agressor atinge um filho ou outra pessoa próxima para causar medo, sofrimento psicológico ou exercer controle sobre a mulher, essa circunstância pode fundamentar a concessão de medidas protetivas.”
Proteção e prevenção
No Poder Judiciário de Mato Grosso, o enfrentamento à violência doméstica envolve atuação integrada entre magistrados, servidores, equipes multidisciplinares e instituições da rede de proteção.
Além da análise dos processos e da concessão de medidas protetivas de urgência, as Varas Especializadas identificam situações de risco, encaminham vítimas aos serviços especializados e adotam providências para interromper a escalada da violência.
Com a criação do crime de vicaricídio e o reconhecimento da violência vicária na Lei Maria da Penha, o sistema de Justiça passa a contar com instrumentos mais precisos para identificar esse padrão de violência e agir preventivamente.
Para a juíza Tatyana Lopes de Araújo Borges, a principal mudança prática é a ampliação da fundamentação jurídica para concessão de medidas protetivas. “A lei amplia nossa possibilidade de atuação porque permite conceder medidas protetivas quando houver risco não apenas para a mulher, mas também para filhos, familiares ou pessoas próximas utilizados pelo agressor como forma de intimidação”.
A magistrada ressalta que a nova tipificação também fortalece a formulação de políticas públicas. “Quando conseguimos identificar um crime específico, podemos mensurar melhor sua incidência, compreender o perfil do agressor e desenvolver estratégias para evitar que essa violência aconteça”.
Autor: Marcia Marafon
Fotografo:
Departamento: Coordenadoria de Comunicação do TJMT
Email: [email protected]
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