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MPMT apresenta sistemas e informa que está preparado para exportá-los

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No segundo dia da visita técnica da Comissão de Planejamento Estratégico do Conselho Nacional do Ministério Público (CNMP), o Ministério Público do Estado de Mato Grosso (MPMT) apresentou quatro sistemas e revelou que está preparado para exportar as tecnologias para outros Estados. A subprocuradora-geral de Justiça de Planejamento e Gestão, Hellen Uliam Kuriki, revelou que está em conversação com os Ministérios Públicos do Maranhão e do Espírito Santo a respeito do Sisplan, ao passo que a subprocuradora-geral de Justiça Administrativa, Claire Vogel Dutra, informou que o Banco de Projetos e Entidades (Bapre) tende a ser muito útil para as demais unidades, especialmente após a aprovação da resolução do CNMP que regulamenta a destinação de bens e recursos obtidos em decisões de ações civis coletivas. 

O Sisplan, sistema projetado para garantir o cumprimento dos objetivos estratégicos do ciclo de Planejamento Institucional 2024-2027, com foco na perspectiva de Processos, foi apresentado pela subprocuradora Hellen Kuriki e pelo assessor de Tecnologia da Informação da Subplan, Alex Magalhães Dias. Eles explicaram como navegar pelo sistema, as funcionalidades da ferramenta e destacaram a integração com o Sistema Integrado do Ministério Público (Simp) e com o Portal Foco. “O Sisplan permite o gerenciamento mais efetivo da nossa estratégia e tem a missão de otimizar o trabalho do promotor de Justiça”, afirmou Hellen Kuriki, ressaltando que a ferramenta é resultado de muito trabalho e, acima de tudo, de uma construção coletiva. 

Para a subprocuradora, o Sisplan tem muito a contribuir com a gestão de tempo dentro do MPMT. A partir da informatização e padronização de processos, ele fortalece a governança institucional e garante eficiência no cumprimento dos objetivos estratégicos. Ao propor uma reflexão sobre o Ministério Público do futuro e o futuro do Ministério Público, Hellen Kuriki defendeu que o Planejamento Estratégico faz parte desse contexto. “Não temos como dissociar o MP do futuro da tecnologia, das transformações digitais e da inteligência artificial. Tudo acontece de uma forma muito veloz e, de certa forma, vem para contribuir com o nosso trabalho. É a oportunidade de padronizarmos algumas atividades, que talvez sejam menos complexas dentro do nosso rol de atribuições constitucionais”, defendeu. 

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Conforme a subprocuradora, gerindo melhor o tempo, o Ministério Público poderá de fato movimentar as estruturas para a implementação dos direitos fundamentais instituídos pela Constituição de 1988. “E já falando do futuro do MP, enxergo o promotor de Justiça dentro desse cenário com um tempo bem gerido, como de fato aquele agente que vai participar do processo de construção de consenso no aprimoramento de políticas públicas. Isso exigirá esforço e mudança de cultura. E Planejamento Estratégico tem muito a contribuir, pois, quando bem arquitetado, ele nos traz qualidade nas entregas, proporciona capilaridade e conseguimos ganhar em escala”, argumentou. 

O presidente da Comissão de Planejamento Estratégico do CNMP, conselheiro Moacyr Rey Filho, questionou os expositores a respeito da possibilidade de integração do Sisplan com outros sistemas. Os representantes do MPMT informaram que ele foi concebido para trabalhar acoplado ou não ao Simp e que, tecnicamente falando, é possível conectá-lo a outros sistemas. Essa versatilidade torna a tecnologia mais atrativa e amplia a possibilidade de expansão e acesso a outras unidades do país. 

Bapre – O Banco de Projetos e Entidades do MPMT, plataforma digital que centraliza todas as informações necessárias para a destinação de recursos pela instituição, foi apresentado pelo assessor de Tecnologia da Informação Rodrigo Fonseca de Moraes. O sistema abrange dados detalhados sobre beneficiários, recursos oriundos de Termos de Ajustamento de Conduta (TAC), acordos, multas civis e recursos recuperados, proporcionando uma visão clara e organizada das alocações dos mesmos. Conforme o assessor de TI, ele tem a missão de gerir os recursos de forma centralizada, eficiente e transparente, e visa se tornar uma plataforma de referência em inovação. 

A subprocuradora-geral de Justiça Administrativa, Claire Vogel Dutra, acrescentou que o Bapre foi criado em 2020 com o objetivo de automatizar e simplificar o processo de destinação de recursos, universalizar e dar visibilidade aos recursos destinados por meio de acordos celebrados pelo Ministério Público. Ela explicou que o sistema reúne valores destinados por meio de Termos de Ajustamento de Conduta (TAC) pelo MPMT, bem como recursos oriundos da recomposição do dano ao erário por meio do Comitê Interinstitucional de Recuperação de Ativos (Cira), e recursos provenientes de acordos de não persecução penal (ANPP), que são geridos pelo Tribunal de Justiça. 

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“É importante destacarmos que já estamos com estratégias de reorganização da nossa rotina para atendimento à resolução conjunta no CNMP com o Conselho Nacional de Justiça (CNJ), criando novas regras para a destinação de recursos. Nós já temos o instrumento, que é o sistema. Agora faremos algumas mudanças na forma de ingresso, uma vez que hoje a instituição se cadastra espontaneamente, durante o ano todo. Pela nova normativa, teremos que publicar um edital para chamamento dessas entidades. Então teremos que mudar um pouco o fluxo e a forma de cadastro. Mas o mais importante é que a ferramenta já existe e vai facilitar muito o nosso trabalho”, enfatizou Claire Dutra. 

Ainda pela manhã, foram apresentados os sistemas Athenas, DTI na Estrada e Portal de Serviços. Também participaram do encontro o membro auxiliar do CNMP, Eduardo Sabo Paes; o vice-procurador-geral de Justiça Institucional do Ministério Público do Distrito Federal e Territórios, Antônio Marcos Dezan; a assessora-chefe da Comissão de Planejamento Estratégico, Bruna Machado Damascena Ribeiro; o promotor de Justiça do MPDFT, Bernardo Matos; e o chefe de divisão da TI do MPDFT, Leandro Siqueira. 

Encerramento – No fim dos trabalhos, a subprocuradora-geral de Justiça Administrativa colocou a equipe do MPMT à disposição do CNMP e agradeceu à Subplan e ao Departamento de Tecnologia da Informação (DTI) pelas apresentações. O conselheiro Moacyr Rey Filho parabenizou o MPMT pelo trabalho desenvolvido. “Ficamos muito impressionados e empolgados por ver tantas iniciativas boas. Esperamos que no futuro estejam na plataforma MP Digital porque isso traz engajamento, estimula a curiosidade dos outros MPs em conhecer e implementar, e contribui para insights. Apenas para pontuar, uma iniciativa que me chamou a atenção foi a medição das destinações de verbas, eu acho que isso é uma propaganda excepcional para o Ministério Público”, considerou.
 

Fonte: Ministério Público MT – MT

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O Idiota e a tragédia de sermos a nossa pior história

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As primeiras páginas de O Idiota (1868), contudo, revelaram o meu engano.Esse assombro não se deu por uma suposta superioridade estética, mas pelo incômodo da pergunta que o romance nos lança. Enquanto em outras obras ele investiga a anatomia do mal ou os abismos da culpa, aqui o problema é outro: o que acontece quando a bondade radical colide frontalmente com a humanidade real, com toda a sua liberdade e o seu fatalismo?A própria escolha do título já funciona como um soco. O Idiota, na tradição eslava do iuródivii (o “louco de Deus” ou o tolo sagrado), é o veredito imediato que a sociedade reserva a quem não sabe dissimular.Logo no início da trama, quando o príncipe Lev Nikoláievitch Míchkin desce do trem em Petersburgo, voltando de um sanatório na Suíça com sua trouxinha de roupas e uma capa gasta de estrangeiro, ele é a própria nudez d’alma. Observando-o, solto nos salões de intrigas da aristocracia russa, o prognóstico é quase instintivo: vão devorá-lo vivo. E quase engolem, pois ele é recebido com risinhos, escárnio e desconfiança. Acontece que a pureza despojada, invariavelmente, incomoda. A gente costuma rir do que não entende, ou do que expõe as nossas próprias máscaras. Sem proferir discursos moralistas, a simples presença do príncipe atua como um espelho profundamente desconfortável. E ninguém gosta de se olhar num espelho que não distorce os defeitos.Ao entrar na vida daquelas pessoas, Míchkin subverte as regras do jogo. É aqui que o romance revela a sua verdadeira genialidade. Se eu tivesse de resumir a grandeza de O Idiota a um único movimento, seria este:Míchkin passa a história inteira recusando-se a reduzir as pessoas à sua pior queda. A tragédia é que quase todas elas continuam a olhar para si mesmas exatamente por esse prisma.Essa miopia existencial é a patologia que contamina todo o ecossistema do livro. Não se trata de um cativeiro exclusivo de uma personagem; é a tragédia humana de estarmos aprisionados às narrativas que forjamos sobre nós mesmos.Basta olhar para Gánia. Ele se odeia por ser medíocre, por querer vender a própria vida por setenta e cinco mil rublos em um casamento de conveniência, mas se convenceu de que não tem outra saída. O mesmo vale para Rogójin, que se vê como um bruto, consumido por uma paixão doentia e incontrolável, fadado a destruir o que ama porque o fatalismo corre no seu sangue. Até a jovem e orgulhosa Agláia vive presa a ideais românticos que não param em pé na realidade árida. Em certa medida, todos estão algemados às suas piores versões. No centro dessa engrenagem, Nastácia Filíppovna é a expressão mais aguda dessa mesma tragédia. Marcada por anos de exploração e abuso nas mãos de Tótskii, ela sucumbe à mais cruel forma de autoengano: perdeu o próprio olhar. A sua ruína não é apenas o trauma sofrido, mas o fato de que ela assumiu a degradação como identidade, passando a enxergar a si mesma exclusivamente através dos olhos de quem a sujou. Ocorre que Míchkin não aceita o roteiro fatalista de nenhum deles. Ele se recusa a converter o acidente moral na essência ontológica da pessoa.A prova definitiva dessa postura surge na cena aterradora em que Gánia, cego de raiva e humilhação, tenta agredir a própria irmã e o príncipe entra no meio para receber a bofetada. A reação de Míchkin desarma moralmente o agressor. Ele não revida. Ele não humilha. Ele apenas sofre, de forma sincera e antecipada, pela vergonha profunda que o outro sentirá de si mesmo. O príncipe redime a cena porque enxerga, sob os escombros do ato covarde, a centelha de humanidade fraturada de quem o cometeu. Há nisso uma intuição psicológica tão devastadora que fatalmente nos empurra para uma projeção inevitável: o que faríamos com um Míchkin no século XXI?A resposta mais amarga é que o crucificaríamos ainda mais rápido. O fatalismo que Dostoiévski combate — a ideia de que um erro resume a sua biografia inteira — virou a regra de ouro do nosso tempo. As redes sociais apenas industrializaram a nossa pressa em reduzir pessoas aos seus piores momentos. Se a aristocracia do século XIX ria do príncipe e o tomava por louco, nossos tribunais digitais o cancelariam sem piedade. A recusa dele em apedrejar o outro seria lida como cumplicidade; sua empatia, diagnosticada como fraqueza.É precisamente contra esse pano de fundo sombrio que a famosa máxima “a beleza salvará o mundo” ganha um peso aterrador.Trata-se de algo muito além da estética — a exuberância de Nastácia, afinal, só atua como estopim de ciúmes, rivalidades e ruínas. A verdadeira beleza do romance habita uma dimensão estritamente moral e espiritual. Ela reside na teimosia de enxergar dignidade onde o mundo só aponta destroços. Na capacidade de resgatar o que sobrou de sagrado sob os escombros da culpa. Dostoiévski, no entanto, é um pensador complexo demais para nos legar uma parábola reconfortante. O livro não acaba em uma apoteose triunfal da virtude; acaba em colapso. Porque o escritor entendeu uma lei tristíssima: nenhuma quantidade de compaixão externa anula a liberdade do outro. Míchkin descortina o horizonte das possibilidades, oferece a redenção, mas não pode habitá-la nos outros.Por isso, terminamos a leitura com um nó na garganta. O livro nos arranca da confortável posição de observadores, obriga-nos a encarar o nosso próprio reflexo e nos confronta com o tema da dignidade humana e dos invólucros a que a submetemos. Questão de amarga solução. Talvez por isso a pergunta central do romance continue tão viva: se a nossa dignidade é intrínseca e somos infinitamente maiores do que a pior história que contamos sobre nós mesmos, por que insistimos em viver — e em julgar — como se não fôssemos?
*Márcio Florestan Berestinas é promotor de Justiça no Ministério Público do Estado de Mato Grosso.

Fonte: Ministério Público MT – MT

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