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Inadimplência recorde no crédito rural expõe falhas na política agrícola

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O salto da inadimplência no crédito rural em 2025 não é apenas um número ruim nas estatísticas oficiais. Ele é um sinal claro de que algo saiu do lugar na engrenagem do financiamento agrícola no Brasil. Encerrar o ano com 6,5% de inadimplência — contra 2,3% em 2024 e pouco mais de 1% no fim de 2023 — indica que uma parcela relevante dos produtores perdeu capacidade de honrar compromissos, mesmo em um setor que segue produzindo volumes elevados.

Isan Rezende, presidente do IA e da Feagro-MT

Para Isan Rezende, presidente do Instituto do Agronegócio (IA) e da Federação dos Engenheiros Agrônomos de Mato Grosso (Feagro-MT), esse nível de inadimplência mostra que o problema não está apenas na produção, mas na combinação de custos altos, crédito caro, renda instável e riscos climáticos cada vez mais frequentes. O produtor colheu, mas não necessariamente vendeu bem. Ou vendeu, mas não conseguiu fechar a conta depois de pagar insumos, arrendamento, máquinas, juros e frete.

“Quando se olha para o crédito rural com recursos direcionados do Plano Safra, o quadro é menos grave, mas ainda preocupante. A inadimplência entre pessoas físicas subiu para 2,6%, mais que o dobro do registrado um ano antes. Isso revela que, mesmo nas linhas com juros regulados e condições mais favoráveis, muitos produtores estão operando no limite do caixa”, comentou Rezende.

“Esse nível de inadimplência não surgiu do nada. Ele é consequência direta de um ambiente em que o produtor rural assumiu praticamente todos os riscos da atividade, enquanto as políticas públicas ficaram aquém do necessário. O produtor enfrentou clima adverso, custos elevados, juros altos e queda de preços em alguns momentos, sem uma rede de proteção compatível com a importância do agro para o país”, disse o presidente.

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“O governo precisa entender que crédito rural não é favor, é instrumento de política agrícola. Quando o crédito fica caro, restrito ou desalinhado da realidade do campo, o resultado aparece nos números da inadimplência. Falta previsibilidade, falta seguro rural eficiente e falta uma política contínua de gestão de risco. Não dá para agir apenas quando o problema já explodiu”.

“As renegociações ajudaram a evitar um cenário ainda pior, mas foram medidas emergenciais. O produtor não pode viver de renegociação em renegociação. O que precisamos é de soluções estruturais, com juros compatíveis, prazos ajustados à atividade e mecanismos que considerem as perdas climáticas e a volatilidade dos preços. Sem isso, a conta não fecha”, advertiu Isan.

“Do lado do produtor, o momento exige cautela e profissionalismo. É hora de planejar melhor o uso do crédito, evitar endividamento desnecessário e buscar eficiência na gestão. Mas é fundamental deixar claro: sem uma ação mais firme do governo para equilibrar o risco da atividade, o produtor continuará exposto, e os números da inadimplência tendem a se repetir”, vaticinou.

CENARIO CLARO – Nas empresas do agro, os índices são menores, mas a tendência é semelhante. A inadimplência praticamente dobrou em um ano, o que mostra que nem mesmo estruturas mais profissionalizadas ficaram imunes. O problema aparece com mais força nas operações com taxas livres, onde os juros acompanharam a escalada do custo do dinheiro no país. Para pessoas físicas, a inadimplência nesse tipo de crédito chegou a 12%, um patamar historicamente elevado.

“Esse cenário deixa uma mensagem clara: o crédito rural ficou mais arriscado, mais caro e menos compatível com a realidade do campo. E aqui entra um ponto sensível. O governo reagiu de forma parcial. As renegociações ajudaram a conter uma piora maior, especialmente nos últimos meses de 2025, mas vieram tarde e de forma limitada. O foco ficou em apagar incêndios, não em atacar as causas do problema”, continuou Rezende.

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“O que deveria estar sendo feito — e não está — é uma política agrícola mais alinhada ao risco real da atividade. Seguro rural segue insuficiente, lento e caro. Programas de equalização de juros não acompanham a volatilidade do custo financeiro. Falta previsibilidade. O produtor assume riscos climáticos, de preço e de custo praticamente sozinho, enquanto o crédito continua sendo oferecido como se o ambiente fosse estável”, encerrou o presidente do IA e da Feagro-MT.

Para quem está no campo, o recado é duro, mas necessário. Em um cenário como esse, o produtor precisa mudar postura. Alavancagem excessiva virou perigo. Crédito de taxa livre deve ser usado com extrema cautela. Renegociar antes de atrasar passa a ser estratégia, não fraqueza. Planejamento de caixa deixa de ser luxo e vira sobrevivência.

Também ganha importância a diversificação de receitas, a venda escalonada da produção e o uso de ferramentas simples de proteção de preço, mesmo que parciais. Quem depende de um único momento de venda ou de um único banco fica mais exposto. Eficiência operacional passa a valer tanto quanto produtividade.

A inadimplência recorde não significa que o produtor errou em massa. Ela mostra que o modelo atual de financiamento do agro está desajustado à realidade econômica e climática do país. Enquanto isso não for corrigido, o risco não vai desaparecer — apenas mudar de lugar, recaindo sempre sobre quem produz.

Para 2026, o desafio é claro: menos improviso, mais gestão; menos crédito fácil, mais crédito sustentável. E, do lado do poder público, menos discurso e mais instrumentos que realmente protejam quem carrega o risco da produção.

Fonte: Pensar Agro

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AGRONEGÓCIO

Cavalo é vendido por R$ 88 milhões em leilão de Nazário

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O cavalo Inferno Sixty Six entrou para a lista dos animais mais valorizados da equinocultura brasileira após atingir avaliação de R$ 88 milhões durante um leilão realizado em Nazário, município localizado a cerca de 70 quilômetros de Goiânia. A negociação ocorreu durante a 5ª edição do JBJ Ranch & Família Quartista Weekend e reforçou o avanço de um mercado que vem movimentando cifras cada vez maiores dentro do agronegócio nacional.

A valorização ocorreu após a venda de 50% das cotas do garanhão por R$ 44 milhões. O acordo, fechado entre criatórios e investidores ligados ao segmento de genética equina, prevê pagamento parcelado em 55 vezes de R$ 800 mil. Com isso, o animal passou a figurar entre os mais caros já negociados no país.

O valor elevado reflete um movimento que vem transformando o mercado de cavalos esportivos no Brasil. Mais do que patrimônio rural ou símbolo de status, animais de genética superior passaram a ser tratados como ativos de alto valor econômico, capazes de gerar receitas contínuas por meio da comercialização de sêmen, embriões, coberturas e descendentes destinados às competições.

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Inferno Sixty Six é considerado um dos principais reprodutores da modalidade Rédeas, uma das categorias mais valorizadas do cavalo Quarto de Milha. Nascido em 2012, o garanhão reúne linhagens tradicionais da raça e já acumula mais de US$ 200 mil em premiações nas pistas norte-americanas. Seus filhos ultrapassam US$ 5 milhões em ganhos em provas internacionais, indicador que pesa diretamente na formação de valor desses animais.

O crescimento desse segmento acompanha a expansão da indústria do cavalo no Brasil. Dados da Associação Brasileira de Criadores de Cavalo Quarto de Milha mostram que a raça lidera o número de registros no país e sustenta boa parte das negociações envolvendo genética esportiva. O Brasil possui um dos maiores plantéis de Quarto de Milha do mundo, impulsionado principalmente pelas provas de Rédeas, Três Tambores e Laço.

A cadeia econômica ligada ao cavalo também ganhou relevância dentro do agro. Levantamentos do setor apontam que a equinocultura brasileira movimenta dezenas de bilhões de reais por ano, considerando criação, eventos, genética, nutrição animal, medicamentos, transporte, leilões e atividades esportivas. Além do impacto econômico direto, o segmento gera milhares de empregos e atrai investimentos cada vez maiores de produtores rurais e empresários.

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O próprio leilão em Goiás dá dimensão desse avanço. Segundo os organizadores, o evento movimentou aproximadamente R$ 257 milhões em apenas três dias, resultado que mais que dobrou o volume financeiro da edição anterior. Foram negociados animais, coberturas, embriões e cotas de reprodutores considerados estratégicos para o mercado internacional da raça.

A valorização dos cavalos de elite também acompanha a crescente profissionalização do setor. Hoje, avaliações genéticas, desempenho esportivo, fertilidade e histórico de produção passaram a ter peso semelhante ao de indicadores financeiros usados em outros segmentos do agronegócio.

Em meio à busca por genética de alta performance, o mercado brasileiro de cavalos esportivos se consolida como um dos mais dinâmicos do agro nacional e negócios como o de Inferno Sixty Six mostram que o setor já opera em um patamar bilionário.

Fonte: Pensar Agro

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