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Saída da Abiove expõe impasse entre mercado, incentivos fiscais, legislação e produção

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A decisão da Associação Brasileira das Indústrias de Óleos Vegetais (Abiove) de deixar a Moratória da Soja reacende o debate sobre os limites entre compromissos ambientais voluntários, segurança jurídica e competitividade do agronegócio brasileiro. A comunicação, segundo noticiou em primeira mão o portal do Globo Rural, foi feita na noite de sexta-feira (02.01), por e-mail, às organizações da sociedade civil que integram o acordo, e incluiu a retirada dos logotipos da entidade e de suas associadas do site oficial da Moratória.

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A Abiove representa cerca de 20 das maiores tradings agrícolas do mundo, responsáveis por parcela significativa da originação e exportação de soja no Brasil. O engajamento dessas empresas na Moratória vinha sendo formalizado por um acordo assinado em 2016 pela própria Abiove e pela Associação Nacional dos Exportadores de Cereais (Anec), ao lado de organizações ambientalistas e do Ministério do Meio Ambiente (MMA). A Anec, pelo que se sabe até o momento, permanece formalmente vinculada ao pacto, assim como parte das tradings.

Nos bastidores do setor, a avaliação é de que a decisão ocorre em meio ao avanço da legislação estadual de Mato Grosso, maior produtor de soja do país, que passou a restringir benefícios fiscais a empresas signatárias de acordos considerados mais restritivos do que a legislação ambiental brasileira. A partir de 1º de janeiro de 2026, voltou a valer o artigo da Lei nº 12.709/2024 que condiciona incentivos fiscais e acesso a áreas públicas estaduais à não participação em compromissos privados que limitem a expansão agropecuária além do que prevê a lei federal.

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O tema ganhou força após o governo de Mato Grosso publicar, no fim de dezembro, o Decreto nº 1.795/2025, que regulamenta a aplicação da norma e altera regras do Programa de Desenvolvimento Industrial e Comercial (Prodeic), principal mecanismo de incentivos fiscais do Estado. Pelo decreto, empresas que imponham restrições comerciais adicionais à produção agropecuária legal podem perder ou deixar de acessar benefícios.

A Associação dos Produtores de Soja e Milho de Mato Grosso (Aprosoja-MT) avaliou como positiva a regulamentação, mas alertou para possíveis brechas. Segundo a entidade, a concentração das punições em novas concessões ou na comprovação objetiva de restrições de mercado exige fiscalização contínua para evitar práticas indiretas ou “condutas dissimuladas”. A Aprosoja defende, inclusive, a criação de um processo formal de recredenciamento das empresas já beneficiadas, como forma de garantir isonomia e transparência.

A entidade também informou que estruturou um sistema próprio de monitoramento e coleta de evidências, com foco nos municípios impactados pela Moratória da Soja, e que passará a encaminhar eventuais irregularidades aos órgãos competentes para adoção de medidas administrativas.

No campo político, a expectativa é de que o governador Mauro Mendes anuncie oficialmente, nos próximos dias, a saída das tradings da Moratória, consolidando o movimento de alinhamento do Estado à defesa de que a produção agropecuária legal não pode ser penalizada por acordos privados.

Enquanto isso, no Supremo Tribunal Federal, seguem pendentes pedidos de prorrogação da suspensão da lei estadual. A Advocacia-Geral da União solicitou mais 120 dias para tentativa de conciliação, argumento reforçado por organizações ambientalistas, que alertam para riscos de esvaziamento do pacto ambiental. Já entidades representativas do agro defendem que o prazo de transição foi suficiente e que a norma não estimula desmatamento ilegal, apenas impede que benefícios públicos sejam condicionados a exigências além da legislação vigente.

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Criada em 2006, a Moratória da Soja é um acordo voluntário que proíbe a compra de soja oriunda de áreas desmatadas na Amazônia após julho de 2008, mesmo quando o desmate é legal. Ao longo dos anos, o pacto passou a ser questionado por produtores e governos estaduais, que apontam impactos sobre a expansão produtiva, distorções de mercado e insegurança jurídica.

Relatórios do Tribunal de Contas de Mato Grosso indicam que, entre 2019 e 2024, tradings signatárias receberam cerca de R$ 4,7 bilhões em incentivos fiscais estaduais, o que ampliou o debate sobre o uso de recursos públicos em um ambiente de regras privadas.

Com o setor produtivo pressionado por custos, exigências internacionais e margens mais estreitas, a saída da Abiove da Moratória marca mais um capítulo da disputa entre competitividade, soberania regulatória e acesso a mercados. Para o agro, o desafio agora é garantir previsibilidade, respeito à legislação brasileira e condições equilibradas para continuar produzindo, investindo e gerando renda, sem abrir mão da responsabilidade ambiental prevista em lei.

Fonte: Pensar Agro

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China confirma foco de aftosa e abates na Rússia elevam alerta no mercado

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A confirmação de um foco de febre aftosa na China, somada ao abate de dezenas de milhares de bovinos na Rússia, colocou o mercado global de carne em estado de atenção. O cenário mistura fato sanitário confirmado com dúvidas sobre a real dimensão de problemas no rebanho russo, combinação que já começa a repercutir no comércio internacional.

O governo chinês confirmou casos da doença na região noroeste do país, próxima à fronteira russa, e classificou a cepa como altamente contagiosa. A resposta seguiu o protocolo sanitário: abate dos animais infectados, desinfecção das áreas e reforço no controle de fronteiras, incluindo restrições ao trânsito de gado.

Do lado russo, não há confirmação oficial de febre aftosa. As autoridades atribuem os casos a doenças como pasteurelose, mas o volume de medidas adotadas chama a atenção. Desde fevereiro, mais de 90 mil bovinos foram abatidos em diferentes regiões, com concentração na Sibéria. O número elevado e as restrições impostas em áreas rurais ampliam a desconfiança do mercado sobre a real natureza do problema.

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A reação já começa a aparecer no comércio. Países da região adotaram restrições à carne russa, movimento típico em situações de risco sanitário. O episódio ganha peso adicional porque a Rússia foi reconhecida recentemente pela Organização Mundial de Saúde Animal como área livre de febre aftosa — condição essencial para manter exportações.

Para o mercado global, a combinação de foco confirmado na China e incerteza na Rússia eleva o risco de volatilidade nos preços e de redirecionamento de fluxos comerciais. Em situações desse tipo, importadores tendem a buscar fornecedores com maior previsibilidade sanitária.

É nesse ponto que o Brasil entra no radar. O país produz cerca de 10 milhões de toneladas de carne bovina por ano, é o 2º maior produtor mundial — atrás apenas dos Estados Unidos — e o maior exportador global, com embarques superiores a 3 milhões de toneladas anuais, principalmente para China, Estados Unidos e países do Oriente Médio. Sem registro de febre aftosa desde 2006, o país sustenta o acesso aos mercados com base em vigilância sanitária, rastreabilidade e controle de fronteiras

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No campo sanitário, mantém um histórico favorável: O último foco de febre aftosa no Brasil foi registrado em 2006, no Mato Grosso do Sul, e desde então o país avançou no controle da doença, com reconhecimento internacional de áreas livres e, mais recentemente, a retirada gradual da vacinação em alguns estados. Nesse contexto, episódios sanitários em concorrentes tendem a abrir espaço comercial, mas também aumentam a responsabilidade sobre vigilância, rastreabilidade e controle de fronteiras para preservar o acesso aos mercados.

Para o produtor brasileiro o impacto é direto. Qualquer instabilidade sanitária global influencia preço, demanda e fluxo de exportação. Para o produtor brasileiro, o momento exige atenção ao mercado internacional e reforça um ponto conhecido: sanidade animal continua sendo um dos principais ativos de competitividade do país.

Fonte: Pensar Agro

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