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Mutirão Interligue Já incentiva conexão de imóveis à rede de esgoto

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O engenheiro florestal Walmir da Silva Moreira participou, na tarde desta segunda-feira (1º), da 4ª edição do Mutirão de Conciliação “Interligue Já”, realizado no Complexo dos Juizados Especiais Desembargador José Silvério Gomes, em Cuiabá. Durante o evento, ele firmou acordo e se comprometeu a realizar a interligação da residência, localizada no bairro Jardim Shangri-Lá, à rede pública de esgoto no prazo de 60 dias. “A iniciativa do mutirão é excelente, fomos muito bem recebidos e atendidos. Vou ganhar uma muda de ipê e estou muito feliz com isso também”, avaliou o engenheiro, que esteve acompanhado do filho.Além da muda de ipê fornecida pelo projeto Verde Novo, Walmir levou para casa o biolodo oferecido pela concessionária Águas Cuiabá, um adubo orgânico e nutritivo, resultado da transformação do lodo gerado no tratamento de esgoto. A 4ª edição do mutirão será realizada de 1º a 5 de dezembro. Ao todo, estão previstas 640 audiências envolvendo imóveis residenciais e comerciais distribuídos por toda a cidade de Cuiabá.A promotora de Justiça Maria Fernanda Corrêa da Costa, que atua na 17ª Promotoria de Justiça Cível de Defesa da Ordem Urbanística e do Patrimônio Cultural de Cuiabá, ressalta a importância da ligação dos imóveis à rede pública de esgoto. Segundo ela, a medida é essencial para que os resíduos recebam tratamento adequado antes de retornarem aos rios, contribuindo para a melhoria da qualidade da água e para a proteção da saúde pública. “O mutirão de conciliação é um sonho que se tornou realidade. Esse trabalho faz com que possamos ensinar para a população cuiabana a amar a cidade. Quando mostramos a importância da interligação, não existe ninguém que se oponha, porque todo mundo compreende como seu ato faz a diferença. Quanto mais falarmos sobre isso, mais as pessoas vão entender, porque só quem tem conhecimento ama, e só quem ama, cuida”, afirmou a promotora de Justiça na abertura da 4ª edição. Maria Fernanda Corrêa da Costa explicou que o projeto depende do esforço coletivo para garantir um meio ambiente mais saudável, prevenir doenças e transformar os rios de Cuiabá em fontes de água limpa, deixando um legado para as futuras gerações. Ele ressaltou que a iniciativa só se tornou possível graças à cooperação entre instituições como o Poder Judiciário, Águas Cuiabá, Cuiabá Regula e o Ministério Público.O promotor de Justiça Carlos Eduardo Silva, titular da 29ª Promotoria de Justiça de Defesa Ambiental e da Ordem Urbanística, destacou que a iniciativa é destinada a todos os proprietários de imóveis em Cuiabá que já contam com infraestrutura disponível na região. “Estamos recebendo as empresas e estabelecimentos que têm interesse em firmar acordos para que possamos promover o máximo possível de interligações à rede pública de esgoto. Venham firmar acordos, venham conosco conhecer a realidade do saneamento no Estado”, afirmou.A juíza Cristiane Padim da Silva, coordenadora do Núcleo Permanente de Métodos Consensuais de Solução de Conflitos (Nupemec), argumentou que a interligação é a conexão dos imóveis com a cidade e, sob o ponto de vista dos rios, a conexão com a casa chamada Terra. “É importante esse nosso trabalho de conscientização, porque parte do pressuposto de que todos que estão envolvidos, e todos aqueles que virão participar, estão cuidando de si. Quando eu cuido da minha casa, eu cuido de mim, dos meus familiares. Então eu cuido de mim, cuido da natureza e também cuido dos outros. E isso é amor”, afirmou. O mutirão conta com a parceria do Centro de Apoio Operacional do Patrimônio Histórico e Cultural, do Meio Ambiente Urbano e de Assuntos Fundiários (CAO Urbe). Conforme o coordenador-adjunto do CAO, promotor de Justiça Márcio Florestan Berestinas, a interligação é uma medida essencial para a cidade. “Sem ela, mesmo com toda a infraestrutura de rede instalada, o esgoto continua sendo despejado de forma inadequada em fossas, córregos ou no solo, contaminando o ambiente, disseminando doenças e comprometendo a qualidade da água. Quando o imóvel se conecta à rede pública, esse efluente passa por tratamento adequado antes de retornar ao meio ambiente, contribuindo para rios mais limpos, bairros mais saudáveis e para uma cidade mais sustentável. Estamos falando de uma ação que salva vidas”, destacou, Ele lembrou que este esforço está alinhado ao Planejamento Estratégico Institucional do Ministério Público de Mato Grosso, que tem como meta promover a gestão sustentável da água e ampliar o acesso ao saneamento adequado. Saiba mais – O Mutirão de Conciliação “Interligue Já” é promovido pelo Ministério Público do Estado de Mato Grosso em parceria com o Poder Judiciário, a concessionária Águas Cuiabá, e o Município. As audiências ocorrem presencialmente no período vespertino (das 13h às 18h), com a participação de conciliadores e representantes das instituições envolvidas. Durante as audiências, serão apresentadas propostas para a rápida e correta interligação dos imóveis à rede pública de esgoto disponível na região. As partes também serão orientadas a solicitar vistoria técnica, a fim de garantir que as ligações estejam adequadas, evitando problemas como mau cheiro, refluxo e contaminação ambiental. Após a conciliação, os compromissários terão prazo para realizar a interligação dos imóveis à rede pública de esgoto e desativar os sistemas alternativos de descarte (como fossas sépticas ou lançamentos na rede de águas pluviais). Na última edição do mutirão, realizada entre 6 e 10 de outubro de 2025, foram conduzidas 303 sessões de conciliação, alcançando um índice de acordo de 93%.

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Fonte: Ministério Público MT – MT

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O Idiota e a tragédia de sermos a nossa pior história

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As primeiras páginas de O Idiota (1868), contudo, revelaram o meu engano.Esse assombro não se deu por uma suposta superioridade estética, mas pelo incômodo da pergunta que o romance nos lança. Enquanto em outras obras ele investiga a anatomia do mal ou os abismos da culpa, aqui o problema é outro: o que acontece quando a bondade radical colide frontalmente com a humanidade real, com toda a sua liberdade e o seu fatalismo?A própria escolha do título já funciona como um soco. O Idiota, na tradição eslava do iuródivii (o “louco de Deus” ou o tolo sagrado), é o veredito imediato que a sociedade reserva a quem não sabe dissimular.Logo no início da trama, quando o príncipe Lev Nikoláievitch Míchkin desce do trem em Petersburgo, voltando de um sanatório na Suíça com sua trouxinha de roupas e uma capa gasta de estrangeiro, ele é a própria nudez d’alma. Observando-o, solto nos salões de intrigas da aristocracia russa, o prognóstico é quase instintivo: vão devorá-lo vivo. E quase engolem, pois ele é recebido com risinhos, escárnio e desconfiança. Acontece que a pureza despojada, invariavelmente, incomoda. A gente costuma rir do que não entende, ou do que expõe as nossas próprias máscaras. Sem proferir discursos moralistas, a simples presença do príncipe atua como um espelho profundamente desconfortável. E ninguém gosta de se olhar num espelho que não distorce os defeitos.Ao entrar na vida daquelas pessoas, Míchkin subverte as regras do jogo. É aqui que o romance revela a sua verdadeira genialidade. Se eu tivesse de resumir a grandeza de O Idiota a um único movimento, seria este:Míchkin passa a história inteira recusando-se a reduzir as pessoas à sua pior queda. A tragédia é que quase todas elas continuam a olhar para si mesmas exatamente por esse prisma.Essa miopia existencial é a patologia que contamina todo o ecossistema do livro. Não se trata de um cativeiro exclusivo de uma personagem; é a tragédia humana de estarmos aprisionados às narrativas que forjamos sobre nós mesmos.Basta olhar para Gánia. Ele se odeia por ser medíocre, por querer vender a própria vida por setenta e cinco mil rublos em um casamento de conveniência, mas se convenceu de que não tem outra saída. O mesmo vale para Rogójin, que se vê como um bruto, consumido por uma paixão doentia e incontrolável, fadado a destruir o que ama porque o fatalismo corre no seu sangue. Até a jovem e orgulhosa Agláia vive presa a ideais românticos que não param em pé na realidade árida. Em certa medida, todos estão algemados às suas piores versões. No centro dessa engrenagem, Nastácia Filíppovna é a expressão mais aguda dessa mesma tragédia. Marcada por anos de exploração e abuso nas mãos de Tótskii, ela sucumbe à mais cruel forma de autoengano: perdeu o próprio olhar. A sua ruína não é apenas o trauma sofrido, mas o fato de que ela assumiu a degradação como identidade, passando a enxergar a si mesma exclusivamente através dos olhos de quem a sujou. Ocorre que Míchkin não aceita o roteiro fatalista de nenhum deles. Ele se recusa a converter o acidente moral na essência ontológica da pessoa.A prova definitiva dessa postura surge na cena aterradora em que Gánia, cego de raiva e humilhação, tenta agredir a própria irmã e o príncipe entra no meio para receber a bofetada. A reação de Míchkin desarma moralmente o agressor. Ele não revida. Ele não humilha. Ele apenas sofre, de forma sincera e antecipada, pela vergonha profunda que o outro sentirá de si mesmo. O príncipe redime a cena porque enxerga, sob os escombros do ato covarde, a centelha de humanidade fraturada de quem o cometeu. Há nisso uma intuição psicológica tão devastadora que fatalmente nos empurra para uma projeção inevitável: o que faríamos com um Míchkin no século XXI?A resposta mais amarga é que o crucificaríamos ainda mais rápido. O fatalismo que Dostoiévski combate — a ideia de que um erro resume a sua biografia inteira — virou a regra de ouro do nosso tempo. As redes sociais apenas industrializaram a nossa pressa em reduzir pessoas aos seus piores momentos. Se a aristocracia do século XIX ria do príncipe e o tomava por louco, nossos tribunais digitais o cancelariam sem piedade. A recusa dele em apedrejar o outro seria lida como cumplicidade; sua empatia, diagnosticada como fraqueza.É precisamente contra esse pano de fundo sombrio que a famosa máxima “a beleza salvará o mundo” ganha um peso aterrador.Trata-se de algo muito além da estética — a exuberância de Nastácia, afinal, só atua como estopim de ciúmes, rivalidades e ruínas. A verdadeira beleza do romance habita uma dimensão estritamente moral e espiritual. Ela reside na teimosia de enxergar dignidade onde o mundo só aponta destroços. Na capacidade de resgatar o que sobrou de sagrado sob os escombros da culpa. Dostoiévski, no entanto, é um pensador complexo demais para nos legar uma parábola reconfortante. O livro não acaba em uma apoteose triunfal da virtude; acaba em colapso. Porque o escritor entendeu uma lei tristíssima: nenhuma quantidade de compaixão externa anula a liberdade do outro. Míchkin descortina o horizonte das possibilidades, oferece a redenção, mas não pode habitá-la nos outros.Por isso, terminamos a leitura com um nó na garganta. O livro nos arranca da confortável posição de observadores, obriga-nos a encarar o nosso próprio reflexo e nos confronta com o tema da dignidade humana e dos invólucros a que a submetemos. Questão de amarga solução. Talvez por isso a pergunta central do romance continue tão viva: se a nossa dignidade é intrínseca e somos infinitamente maiores do que a pior história que contamos sobre nós mesmos, por que insistimos em viver — e em julgar — como se não fôssemos?
*Márcio Florestan Berestinas é promotor de Justiça no Ministério Público do Estado de Mato Grosso.

Fonte: Ministério Público MT – MT

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