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Grupo Reflexivo para Homens mantém Barra do Garças há quase quatro anos sem feminicídios

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Barra do Garças tem alcançado um resultado que chama atenção em todo o estado: há quase quatro anos o município não registra feminicídios. O dado contrasta com o cenário estadual, pois, de janeiro a outubro de 2025 Mato Grosso contabilizou 46 feminicídios e 41 homicídios dolosos cujas vítimas foram mulheres.

Entre os fatores que explicam essa queda significativa está o fortalecimento das ações integradas da Rede de Enfrentamento à Violência contra a Mulher, especialmente o Grupo Reflexivo para Homens (GRH), criado em 2014 e desde novembro de 2021 coordenado pela 2ª Vara Criminal com metodologia reflexivo-educativa própria. Considerado estratégico para interromper ciclos de agressão, o programa já realizou 38 encontros e 75 atendimentos até outubro de 2025, além de ter acolhido 274 homens entre 2022 e 2024. A taxa de reincidência atual é de apenas 5%, índice considerado excepcional para programas dessa natureza.

Com apoio do Poder Judiciário e dos órgãos de segurança, o trabalho tem mudado comportamentos, prevenido reincidências e reconstruído vínculos familiares.

Participação obrigatória

O juiz Marcelo Sousa Melo Bento de Resende, titular da 2ª Vara Criminal de Barra do Garças, explica que o grupo funciona como uma medida protetiva aplicada aos agressores. Assim que o processo chega ao gabinete, ele determina a participação obrigatória nas reuniões e o descumprimento pode levar à prisão.

Os encontros acontecem às quartas-feiras, no Fórum, das 19h às 20h, divididos em oito módulos que abordam relações de gênero, saúde do homem, autocuidado e padrões culturais associados à masculinidade.

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Segundo o magistrado, muitos homens chegam ao grupo distantes do próprio universo emocional. “Muitos descobrem que podem demonstrar afeto, que podem abraçar os filhos. Já tivemos casos de pais que diziam nunca ter abraçado seus filhos antes do grupo”, relatou.

O GRH também passou a receber participantes voluntários: pais, irmãos e amigos que desejam compreender melhor o tema, mediante assinatura de termo de sigilo.

Atuação integrada

Uma mulher de cabelos escuros e compridos fala ao microfone em evento ao ar livre. Veste uniforme branco com detalhes rosa e azul, e distintivo policial pendurado no pescoço. Árvores e veículos ao fundo.Para Andrea Guirra, presidente da Rede de Enfrentamento à Violência Contra a Mulher e investigadora da Polícia Civil, o impacto do grupo reflexivo é possível graças ao trabalho articulado entre diversas instituições. Ela destaca que cerca de 40% das mulheres vítimas retornam ao relacionamento e que muitas pedem espontaneamente que seus (ex) companheiros participem do grupo. A baixa reincidência reforça a efetividade da iniciativa.

A Rede existe desde 2013, reunindo ações de prevenção, educação e acolhimento. Pesquisas acadêmicas mapeiam áreas vulneráveis, orientando ações mais direcionadas. “Ameaça não é pouca coisa. Quando a mulher procura a polícia ainda no início da violência, isso fortalece sua proteção e impede que o crime evolua”, afirmou.

Investigação, acolhimento e resposta rápida

À frente da Delegacia Especializada da Mulher desde 2019, a delegada Luciana Canaverde afirma que a articulação entre Polícia Civil, Polícia Militar, PRF, Ministério Público e Judiciário é decisiva para garantir a segurança das mulheres. Antes da integração, o município registrava cerca de dois feminicídios por ano.

Ela reforça que o atendimento começa no acolhimento e segue com investigação célere. Medidas protetivas costumam ser concedidas em menos de 24 horas. “Em uma das ocorrências mais recentes, a ação rápida da Polícia Militar evitou que um feminicídio se concretizasse. Isso mantém nossa estatística zerada”, destacou.

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A delegada também ressalta o impacto das ações educativas. Crianças e adolescentes passaram a reconhecer sinais de violência e orientar familiares, fruto de projetos como o “Maria da Penha Vai à Escola”, desenvolvido pela 2ª Vara Criminal desde 2023, que já atendeu 450 estudantes do 9º ano ao Ensino Médio.

Resultados que transformam vidas

Embora o GRH não tenha finalidade terapêutica, os efeitos são profundos: ampliação do autoconhecimento, ressignificação de sentimentos como raiva e frustração, reconhecimento de padrões intergeracionais de violência e valorização da subjetividade masculina e feminina. Muitos participantes relatam ser a primeira vez que encontram um espaço seguro para falar e ser ouvidos. Cerca de 4% dos egressos retornam voluntariamente para continuar participando das rodas de conversa, mesmo após concluírem o ciclo obrigatório.

A combinação de responsabilização, reflexão, educação e atuação integrada tornou o Grupo Reflexivo para Homens uma das experiências mais bem-sucedidas de prevenção à violência contra a mulher em Mato Grosso. A expectativa é de que o modelo inspire outros municípios e fortaleça ainda mais a proteção das mulheres em todo o estado.

Autor: Roberta Penha

Fotografo: Josi Dias

Departamento: Coordenadoria de Comunicação do TJMT

Email: [email protected]

Fonte: Tribunal de Justiça de MT – MT

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Tribunal de Justiça de MT

“Selo Imprensa por Elas” destaca adesão de veículos de comunicação e busca proteger mulheres

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O troféu e o “Selo Imprensa Por Elas”, entregues aos 27 veículos de comunicação presentes no “Café com a Imprensa – Diálogo e Proteção à Mulher”, marcam o início de novas ações de enfrentamento à violência de gênero a serem desenvolvidas pelo Poder Judiciário de Mato Grosso. O evento, realizado nesta quarta-feira (15) no Tribunal de Justiça, em Cuiabá, foi o primeiro passo para jornalistas e magistrados construírem juntos um protocolo de cobertura jornalística que proteja as vítimas da violência doméstica e feminicídio.

“Podemos juntos fazer uma transformação cultural. Precisamos do apoio e da parceria dos meios de comunicação para evitar que mais mulheres sejam mortas em seus ambientes íntimos. Esse encontro foi essencial para ouvirmos as dúvidas e sugestões dos profissionais presentes e debatermos questões sensíveis”, ressaltou a coordenadora da Coordenadoria Estadual da Mulher em Situação de Violência Doméstica e Familiar (Cemulher-MT), desembargadora Maria Erotides Kneip.

Durante o café, foi distribuído o “Guia Rápido –Jornalismo que protege e dignifica” como primeira minuta de um trabalho maior a ser construído, conforme a juíza Ana Graziela Vaz de Campos, membro da Cemulher e vice-presidente do Fórum Nacional de Juízes e Juízas (Fonavid).

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“O ‘Selo Imprensa Por Elas’ destaca os veículos que investem na qualificação de suas equipes e na melhora contínua da cobertura responsável dos casos de violência doméstica. Desse diálogo, vamos construir juntos um protocolo de cobertura jornalística para evitar o chamado efeito copycat, quando se divulga a forma como ocorreu o feminicídio e um caso gera outros similares”, pontuou.

Para a desembargadora Gabriela Knaul Albuquerque, a iniciativa tem como objetivos a “proteção da dignidade das mulheres, a prevenção da revitimização e o estímulo a práticas que contribuam para a responsabilização e reeducação de agressores, inclusive por meio de Grupos Reflexivos”.

Durante o evento, o delegado do Distrito Federal Marcelo Zago trouxe dados de pesquisa científica sobre os impactos da cobertura midiática sobre o assunto, bem como da violência de gênero e feminicídios.

Também estavam presentes o presidente do TJMT, desembargador José Zuquim Nogueira; os desembargadores Márcio Vidal e Jonnes Gattas; o secretário-geral do Tribunal de Justiça, juiz Agamenon Alcântara Moreno; a juíza Tatyana Lopes de Araújo Borges, que preside a Rede de Enfrentamento de Cuiabá; além dos juízes Marcos Terencio Agostinho Pires, de Cuiabá; Leonísio Salles de Abreu Júnior, de Chapada dos Guimarães; Rosângela Zacarkim, de Sinop; Suelen Barizon Hartmann, de Tangará da Serra; Djessica Giseli Kuntzer, de Pontes e Lacerda; Juliano Hermont Hermes da Silva, de Várzea Grande; Luciana Sittinieri Leon, de Rio Branco e Marcelo Sousa Melo Bento de Resende, de Barra do Garças.

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Autor: Lídice Lannes

Fotografo:

Departamento: Coordenadoria de Comunicação do TJMT

Email: [email protected]

Fonte: Tribunal de Justiça de MT – MT

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