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Judiciário apoia escolas e participa de intercâmbio cultural na comunidade quilombola de Mata Cavalo

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Integrantes de grupo de siriri e do Comitê de Igualdade Racial do TJMT posam para foto, sorrindo, em frente a uma parede com pinturas sobre a África.O apoio do Poder Judiciário de Mato Grosso, por meio do Comitê de Promoção da Equidade Racial, possibilitou que 130 estudantes da Escola Estadual de Desenvolvimento Integral da Educação Básica (EEDIEB) Professor Antônio Cesário de Figueiredo Neto saíssem de Cuiabá e fossem até a Escola Estadual Quilombola Tereza da Conceição de Arruda, localizada na comunidade rural de Mata Cavalo, em Nossa Senhora do Livramento, nesta quarta-feira (19), para viver um intercâmbio cultural em celebração ao Dia da Consciência Negra.

O Comitê de Promoção da Equidade Racial do Judiciário marcou presença com a participação da juíza coordenadora Renata do Carmo Evaristo Parreira e equipe de servidoras.

O intercâmbio cultural faz parte do projeto “Vozes Ancestrais 2025 Riqueza Cultural dos Povos Quilombolas”, desenvolvido pela Escola Cesário Neto ao longo de todo o ano escolar, proporcionando aos estudantes o conhecimento da história e da cultura afro-brasileira de forma transversal, ou seja, por meio de diversas disciplinas, conforme prevê a Lei federal nº 10.639/2003.

Wagner Mônantha, diretor da Escola Cesário Neto, durante entrevista à TV Justiça. Ele é um homem jovem, negro, de cabelo black power, usando camisa verde militar. Ele está no ginásio de uma escola.“Para promover ações que pudessem ampliar esse conhecimento, nós buscamos a parceria com o Tribunal de Justiça, juntamente com a doutora Renata Evaristo, que possibilitou a aproximação com o desembargador Juvenal Silva, e eles conseguiram pra gente o transporte para estarmos aqui hoje, celebrando juntamente com a comunidade quilombola de Mata Cavalo. Essa parceria fortalece o conhecimento e possibilita que, de fato, isso chegue aos estudantes de uma maneira mais evidente e in loco, que é o mais importante”, afirma o diretor da Escola Césario Neto, Wagner Mônantha Souza Morais.

Educação antirracista

Diretora e professora da Escola Estadual Quilombola de Mata Cavalo posam para a foto sorrindo, no stand que fala sobre o projeto O Legado das Sementes.A Lei 10.639/2003 também é cumprida à risca pela Escola Quilombola Tereza Conceição de Arruda, que há 12 anos realiza a feira cultural, que neste ano teve como tema “Arte que brota da terra: quilombo e sustentabilidade”. De acordo com a gestora da unidade escolar, Rosângela de Campos Silva, ao longo de todo o ano o pertencimento em relação à cor é trabalhado com os estudantes em todas as disciplinas e, ao final do ano, todo conhecimento adquirido é compartilhado com a comunidade e visitantes.

“Nós recebemos a todos com muita alegria porque é uma oportunidade de estarmos mostrando que uma educação diferente funciona. Então, aqui, as crianças vão ter essa oportunidade de falar que podem aprender matemática fazendo trança, por exemplo. São coisas que você não vai encontrar em outras as escolas e que aqui você encontra porque a gente trabalha isso o ano todo”, conta Rosângela.

Parceria cidadã

foto que mostra um artesão expondo cestos de palhaSegundo a educadora, este foi o primeiro ano de parceria da escola com o Poder Judiciário de Mato Grosso, que, ao longo do ano esteve presente levando palestras e cursos, que abordaram temas como violência contra a mulher, Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) e adoção.

“Fizemos essa parceria, que já vem tecendo resultados porque nós tínhamos vários incômodos em dizer algumas coisas relacionados a lei. Depois que fizemos essa parceria, tivemos alguns cursos e palestras para os estudantes, para a comunidade e para os professores, que sanaram muitas das nossas dúvidas. Eu acredito que essa parceria vai se multiplicar, vão sair daqui futuros advogados, juízes… É para isso que estamos aqui na escola: para dar uma qualidade de ensino melhor para essas crianças”, afirma.

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Juíza Renata Evaristo durante entrevista à TV Justiça. Ela é uma mulher negra, de cabelos longos e castanhos, usando roupa verde militar. ela está no ginásio de uma escola estadual. De acordo com a juíza coordenadora do Comitê de Promoção da Equidade Racial do Poder Judiciário de Mato Grosso, Renata do Carmo Evaristo Parreira, a parceria do Judiciário para a promoção do intercâmbio cultural entre as escolas é uma forma de valorizar o trabalho realizado junto aos estudantes e ressaltar a importância da educação antirracista.

“É importante porque, inicialmente os alunos da Escola Cesário Neto estudaram, fizeram diversos trabalhos e, agora, vieram em campo interagir com alunos da comunidade quilombola. É uma forma de relembrar a cultura dos povos negros, que são de fundamental importância na formação do nosso país. Essa união da comunidade escolar com o Judiciário é uma forma de fortalecer os laços em busca de uma cultura antirracista”, assevera.

A juíza destaca ainda que as palestras promovidas pelo Judiciário nas escolas também contribuem para a aproximação com a sociedade. “Essa é uma forma importante do Judiciário mostrar que nós estamos além dos gabinetes e das decisões judiciais, que nós também estamos nos inserindo na comunidade”, diz.

Ensino para a vida

Entrada da Escola Quilombola de Mata Cavalo toda decorada com palhas de coqueiro, frutas da região, imagens de santo, entre outros.Na feira cultural da Escola Quilombola, os visitantes chegaram e já foram encantados com a decoração, que utilizou produtos da agricultura familiar, puderam percorrer as salas de aula e conferir apresentações sobre artesanato com materiais da comunidade rural, plantas medicinais, etnomatemática e culinária regional. No pátio, havia ainda uma feira de afroempreendedoras da comunidade de Mata Cavalo, e a escola ainda conta com uma casa de pau-a-pique toda decorada conforme a cultura local.

A programação da feira contou com cortejo afro, desfile da beleza afro, apresentações de dança afro feitas pelos grupos da própria escola, como Grupo de Congo Mirim Yalodê, siriri e cururu com Grupos Ipê do Cerrado e Flor de Girassol.

Lorraine Nascimento, aluna da Escola Cesário Neto, durante entrevista à TV Justiça. ela é uma adolescente de pele branca, cabelos longos e ruivos, usando camiseta do grêmio estudantil e óculos de grau. A estudante da Escola Cesário Neto, Lorraine Vitória Nascimento, do 1º ano do Ensino Médio, lembra que o intercâmbio cultural já levou os alunos da Escola Quilombola em sua unidade, no último dia 14 de novembro, também com apoio do Poder Judiciário. Segundo ela, é a primeira vez que tem a oportunidade de acessar esse tipo de conhecimento ancestral, o que a tem encantado.

“Eu não sabia sobre os povos quilombolas, não entendia a cultura, não sabia nada. Eles visitaram a nossa escola, dançaram, mostraram a cultura deles pra gente. Com isso fui aprendendo mais. E estar aqui hoje é muito legal! É muito bonito ver as danças deles, as salas todas decoradas, as coisas que eles ainda enfrentam nos dias de hoje”, relata.

A jovem destaca ainda que ter essa vivência torna o aprendizado mais rico. “Fica mais fácil de aprender porque quando a gente vem em uma escola que trabalha com isso, a gente consegue aprender muito mais”.

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Kamila Hadassa, aluna da escola Cesário Neto, durante entrevista à TV Justiça. Ela é uma adolescente de pele negra não retinta, cabelos pretos e lisos presos em maria-chiquinha com lacinho rosa, usando uniforme azul marinho da escola e óculos de grau.Também aluna do 1º ano do Ensino Médio na Escola Cesário Neto, a jovem Kamila Hadassa Santos do Nascimento se mostrou entusiasmada ao ter contato com tanta cultura afro-brasileira. “Despertou muito interesse em mim por conta das várias apresentações maravilhosas, que foram incríveis, perfeitas! Eu amei as danças, amei como as pessoas estavam livres dançando! É muito interessante isso. Também é muito interessante saber sobre a religião, os costumes deles, porque ninguém é igual a ninguém”.

Conhecimento vivo

Parede de uma sala de aula decorada para a Feira cultural. A decoração é composta de pintura de uma mulher negra com turbante, palhas de coqueiro, panos com estampa florida, vasos e cestos. De acordo com a professora Claudiceia Celeste, que ensina Etnomatemática na Escola Quilombola Tereza Conceição de Arruda, a educação antirracista tem feito com que os cerca de 380 alunos estejam sempre em conexão com a comunidade, composta por aproximadamente 480 famílias. “Nós temos os mestres dos saberes, que adentram nossas salas para ensinar o conteúdo juntamente conosco. Tudo o que eles constroem, que eles plantam, tem a ver com o conteúdo didático porque as crianças trazem isso de casa, das suas famílias. Então nós temos que potencializar esse trabalho dentro da nossa escola”, ressalta.

A educadora conta que a escola oferece disciplinas como Prática e Cultura em Artesanato Quilombola, em que os alunos utilizam materiais cultivados pela comunidade rural para produzir artigos como cestos de palha de banana, biojoias, dentre outros artesanatos que valorizam a cultura local. Além disso, a disciplina Sankofa tem como proposta resgatar os saberes da ancestralidade “para entender o presente e melhorar o futuro”.

Juntamente com anciões da comunidade, como os senhores João Clemêncio e João Evangelista, dona Ilídia, entre outros, a professora de Etnomatemática desenvolve o projeto “Legado das sementes crioulas”, que conecta de forma criativa os cultivos do milho, da castanha de caju, do arroz, do babaçu, da semente de mamona, entre outros com as disciplinas escolares. Representante da Seduc, Soenil Clarinda, durante entrevista à TV Justiça. Ela é uma mulher negra, de cabelo black power, usando camiseta preta com estampa afro onde se lê: Mato Grosso Antirracista.

A técnica pedagógica da Coordenadoria de Educação das Relações Étnico-raciais, Ambiental e Quilombola da Secretaria de Estado de Educação (Seduc), Soenil Clarinda de Sales, participou da Feira Cultural na escola quilombola e ressaltou a importância da união de todos para uma educação antirracista.

“Estamos começando esse pontapé no estado de Mato Grosso. E aqui a gente vê a importância do Judiciário estar conosco nessa luta. É uma luta que não é somente do povo preto, mas é uma luta de todos nós. Como diz Angela Davis, não adianta ser contra o racismo. Antes de tudo, a gente tem que ser antirracista. E esse é um movimento no mês de novembro, que tem que acontecer todos os dias. E que bom que a Seduc tem essa política antirracista! Que bom que o Poder Judiciário está aqui conosco para celebrar e para nos ajudar nesse combate ao racismo”, enalteceu.

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Imagens: Ricarte Cardoso

Autor: Celly Silva

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Departamento: Coordenadoria de Comunicação do TJMT

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Fonte: Tribunal de Justiça de MT – MT

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Prevenção e diálogo marcam Semana Restaurativa em Escola Cívico-Militar de Primavera do Leste

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Entre os dias 27 de abril e 06 de maio, o Centro Judiciário de Solução de Conflitos e Cidadania (Cejusc) da Comarca de Primavera do Leste, em parceria com a Escola Estadual Cívico-Militar Sebastião Patrício, realiza uma ampla mobilização em torno das práticas restaurativas, envolvendo estudantes, educadores e facilitadores em uma experiência de escuta, diálogo e cuidado.
Ao longo da semana, serão realizados 53 Círculos de Construção de Paz, mobilizando 26 turmas do 6º ao 9º ano do ensino fundamental, o que representa uma média de 750 estudantes atendidos pela ação. A iniciativa conta com a atuação de 36 facilitadores e tem como eixo o tema da campanha Maio Laranja, abordando, de forma sensível e pedagógica, questões relacionadas à prevenção ao abuso e à exploração sexual de crianças e adolescentes, o respeito ao próprio corpo, o autocuidado e o fortalecimento de vínculos.
Para a juíza-coordenadora do Centro Judiciário de Solução de Conflitos e Cidadania (Cejusc) de Primavera do Leste, Patrícia Cristiane Moreira, a iniciativa amplia o papel do Judiciário e reforça a importância da prevenção na garantia de direitos.
“A atuação da Justiça Restaurativa, com os Círculos de Paz, reafirma o compromisso do Poder Judiciário com a proteção integral de crianças e adolescentes. É uma forma de expandir a atuação para além dos fóruns, levando a presença institucional diretamente à comunidade escolar, com um caráter essencialmente pedagógico e preventivo. Mobilizações como essa, demonstram que a prevenção é o caminho mais eficaz para a garantia de direitos. A ideia é trabalharmos estimulando o protagonismo juvenil, com a criação de espaços seguros de escuta, onde os estudantes possam refletir sobre autocuidado, respeito e convivência. Muitas vezes, as escolas cívico-militares são vistas apenas sob a ótica da disciplina rígida. A introdução dos círculos mostra que rigor e humanização não são opostos, mas complementares. Não se trata de romper com a disciplina, mas de atribuir a ela um novo sentido, baseado na autoconsciência, no diálogo e no cuidado com o outro. Nesse quesito, a escola Sebastião Patrício é uma parceira continua do Judiciário”, destacou a magistrada.
Para a gestora do Cejusc de Primavera do Leste, Marina Borges, que também é instrutora em Justiça Restaurativa e facilitadora experiente em Círculos de Paz, a prática restaurativa revela todos os dias, que dores silenciadas tendem a se manifestar de diferentes formas quando não encontram espaço para se expressar.
Comportamentos muitas vezes interpretados como indisciplina são, na verdade, sinais de sofrimento não elaborado, como a história de uma adolescente de 15 anos, até então, reconhecida como uma aluna dedicada, com alto desempenho nas aulas, e que de repente começou a mudar. Mas nos Círculos de Paz, aprendemos que nada começa de repente.
Marina se lembra, como se fosse hoje, da adolescente que passou a apresentar mudanças significativas no comportamento, tornou-se questionadora em sala, com dificuldades de convivência e queda no rendimento escolar. A mudança no comportamento levou à realização de um círculo de paz com a turma.
Durante o círculo, a adolescente, visivelmente emocionada, compartilhou que estava enfrentando uma situação difícil em casa. Ela contou que cuidava regularmente de uma criança de dois anos da família e que, durante uma confraternização, ocorreu um acidente doméstico envolvendo uma estrutura improvisada de preparo de alimentos, que acabou cedendo e atingindo a criança, levando-a a óbito. Embora, naquele momento específico, a criança não estivesse sob a responsabilidade direta da adolescente, ela passou a atribuir a si mesma a culpa pelo ocorrido, internalizando um sentimento de responsabilidade e dor.
Foi aí, que a habilidade das facilitadoras em compreender o processo de culpa e luto vivenciado pela adolescente, identificou a necessidade para a realização de um segundo círculo, desta vez, com os familiares da criança. O objetivo não era apurar responsabilidades, mas reunir os familiares e a adolescente, para que, juntos, pudessem ouvir e compreender a dor vivida por ela.
Naquele dia, a adolescente pôde não apenas expressar sua dor, mas também ouvir, de forma clara e reiterada dos familiares, que o ocorrido havia sido um acidente e que ela não era responsável pela morte da criança. Esse movimento de reconhecimento conjunto produziu efeitos concretos no processo de elaboração do luto, permitindo que a jovem ressignificasse a sua experiência e aliviasse o peso da culpa que carregava. Com o tempo, os impactos tornaram-se visíveis, a estudante retomou seu engajamento nas atividades escolares, seu comportamento se reorganizou e seu desempenho escolar voltou a refletir seu potencial.
Para a diretora da Escola Cívico-Militar Sebastião Patrício, Liliane Ferrari, a combinação entre disciplina e práticas restaurativas tem produzido resultados concretos no cotidiano escolar.
“Nós conseguimos manter a organização sem perder a humanidade. Aqui, a disciplina caminha junto com o diálogo. Os Círculos de Paz criam um espaço seguro de escuta e fala, onde o estudante pode se expressar sem julgamento. Em vez de punir, buscamos compreender as causas do conflito, e isso reduz significativamente as tensões dentro da escola. Quando bem conduzido, esse equilíbrio entre regras claras e práticas restaurativas fortalece vínculos, promove respeito e contribui para um ambiente mais saudável e acolhedor para todos”.
A diretora enfatiza, que apesar da percepção comum de que escolas cívico-militares operam sob uma lógica rígida e punitiva, a experiência da unidade aponta para um modelo que combina organização com práticas de escuta e cuidado.
“Existe uma ideia de que a escola cívico-militar é só rigidez, mas não é assim que funciona. Nós temos, sim, uma rotina estruturada, com regras claras, organização e disciplina. Mas isso não exclui o diálogo, pelo contrário, fortalece. Os militares atuam na organização e no acompanhamento dos estudantes, enquanto os professores conduzem o ensino normalmente em sala de aula. E, junto disso, desenvolvemos os Círculos de Paz, que são espaços de aproximação, onde o estudante pode se expressar sem julgamento. Aqui, nós não trabalhamos com punição, mas com a compreensão das causas do conflito. Esse equilíbrio entre disciplina e práticas restaurativas tem contribuído para reduzir tensões, fortalecer vínculos e tornar o ambiente mais humano e acolhedor”, concluiu Liliane Ferrari.
Foto: Cejusc de Primavera do Leste

Autor: Naiara Martins

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Fotografo:

Departamento: Núcleo Gestor da Justiça Restaurativa – NugJur

Email: [email protected]

Fonte: Tribunal de Justiça de MT – MT

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