Tribunal de Justiça de MT

Palestra alerta sobre cooptação de jovens por facções em MT

Publicado em

O recrutamento de crianças e adolescentes por facções criminosas, com foco nos mecanismos de cooptação e nos desafios de prevenção e enfrentamento, foi o eixo central da palestra ministrada pelo promotor de Justiça João Batista de Oliveira, do Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco), nesta terça-feira (19), durante o 1º Encontro dos Direitos e Garantias Fundamentais e o 5º Encontro Estadual de Defesa dos Direitos da Criança e do Adolescente de Mato Grosso.
A mesa de debates foi presidida pelo juiz de Direito da 7ª Vara Criminal da Comarca de Cuiabá, Jean Garcia de Freitas Bezerra, e contou como debatedoras com a juíza da Vara da Infância e Juventude de Sinop, Melissa de Lima Araújo, e a promotora de Justiça Laís Liane Resende, coordenadora adjunta do Centro de Apoio Operacional de Atos Infracionais.
Logo no início, o palestrante alertou para a fragilidade da rede de proteção e suas consequências diretas. “Quando a rede de proteção falha, as facções se apoderam de nossas crianças e adolescentes. Isso é um problema grave que nós temos e que precisa ser enfrentado com prioridade”, afirmou.
Durante a exposição, João Batista detalhou os fatores que facilitam o aliciamento de jovens por organizações criminosas, destacando vulnerabilidades sociais, familiares e educacionais. Ele apontou que a pobreza extrema, a fragilidade dos vínculos afetivos e o uso de drogas no ambiente familiar contribuem diretamente para esse processo.
“Famílias desestruturadas, com fragilidade de vínculos e problemas de adição, acabam deixando essas crianças expostas. A rede de proteção não consegue acolher de maneira adequada e as facções passam a ocupar esse espaço”, explicou.
No campo educacional, o promotor ressaltou a evasão escolar como um dos principais vetores de risco. Segundo ele, há grande diferença entre classes sociais, com índices muito mais elevados entre populações vulneráveis. “Nós temos uma evasão escolar absurda nas classes C, D e E, e isso contribui efetivamente para o aliciamento”, pontuou.
O contexto comunitário também foi abordado como elemento determinante para o fortalecimento das facções, que passam a ocupar lacunas deixadas pelo poder público. Essas organizações oferecem benefícios imediatos, como assistência e lazer, criando um sentimento de pertencimento. “Eles promovem uma falsa ideia de acolhimento, oferecendo segurança e atividades que o Estado não entrega, o que facilita a cooptação desses jovens”, destacou o palestrante.
Para dimensionar a gravidade do problema, foram apresentados dados nacionais do Atlas da Violência. Em 2023, o Brasil registrou 45.747 homicídios, sendo que 47,8% envolveram jovens entre 15 e 29 anos. No mesmo período, 21.856 jovens foram mortos, o que corresponde a uma média de 60 vítimas por dia.
O promotor também destacou o perfil das vítimas da violência letal, evidenciando desigualdades estruturais. Dados mostram que 82,9% das vítimas entre 0 e 19 anos são negras, com predominância de adolescentes do sexo masculino entre 15 e 19 anos. Sobre esse cenário, ele enfatizou: “O dado que mais assombra é justamente esse recorte racial. Nós temos uma juventude negra sendo muito mais atingida pela violência, em um índice muito superior ao da população branca”.
Em Mato Grosso, o cenário também preocupa. O palestrante mencionou crescimento de quase 39% nas mortes de jovens entre 15 e 25 anos, com média de 22 óbitos por mês. Para ele, o dado reforça a necessidade de políticas públicas mais efetivas e integradas. “Quando a gente insiste na atuação da rede e nas políticas públicas, é justamente para que isso não aconteça. Sem essa atuação, nós vamos perder nossos jovens para a criminalidade”, alertou.
A palestra ainda evidenciou a evolução das estratégias criminosas envolvendo adolescentes. Entre 2020 e 2026, houve aumento da utilização das redes sociais para recrutamento e controle, formalização de “batismos” em facções e expansão do chamado “tribunal do crime”.
Outro ponto de destaque foi a influência das facções no sistema socioeducativo. Dados apresentados indicam que, em Mato Grosso, dos 240 adolescentes em cumprimento de medidas, 132 possuem indícios de vínculo com organizações criminosas. Para o promotor, isso demonstra a necessidade de atuação mais efetiva dentro e fora das unidades. “Precisamos de estratégias para romper esse vínculo e oferecer alternativas reais de reintegração social”, disse.
Durante o debate, a promotora Laís Liane Resende enfatizou a gravidade do cenário e a velocidade com que o recrutamento tem ocorrido. “É um soco no estômago lidar com essa realidade. A sensação é que estamos em uma guerra e estamos perdendo, porque a cada caso solucionado, novos grupos já estão sendo formados”, afirmou.
A juíza Melissa de Lima Araújo trouxe exemplos que apontam caminhos possíveis, ainda que pontuais. “Quando um adolescente consegue se recuperar e reconstruir sua trajetória, isso já representa um avanço importante, embora saibamos que o desafio ainda é enorme”, destacou.
Ao encerrar, o presidente da mesa, juiz Jean Garcia de Freitas Bezerra, reforçou a importância da atuação preventiva e integrada. “As facções não recrutam esses adolescentes à força, elas os convencem, porque chegam primeiro que o Estado e preenchem lacunas deixadas pela família, pela escola e pela sociedade”, pontuou. Ele concluiu destacando que o enfrentamento passa pela atuação conjunta das instituições: “O problema está na origem, na captação, e é ali que precisamos atuar para quebrar esse ciclo”.
Saiba mais – O encontro é uma iniciativa conjunta do MPMT, por meio da Procuradoria de Justiça Especializada na Defesa da Criança e do Adolescente e do Centro de Estudos e Aperfeiçoamento Funcional (Ceaf); do Poder Judiciário, por meio da Esmagis, da Escola dos Servidores, da Comissão Estadual Judiciária de Adoção (Ceja) e da Coordenadoria da Infância e Juventude (CIJ); e da Faculdade Autônoma de Direito (Fadisp), com apoio da Fundação Escola de Ensino Superior do Ministério Público (FESMP‑MT).
Texto: Julia Munhoz (MPMT) / Foto: Josi Dias (TJMT)

Autor: Assessoria

Leia Também:  PopRuaJud garante reconhecimento voluntário de paternidade em poucas horas em Rondonópolis

Fotografo:

Departamento: Coordenadoria de Comunicação do TJMT

Email: [email protected]

Fonte: Tribunal de Justiça de MT – MT

Advertisement

Tribunal de Justiça de MT

Estereótipos de gênero podem gerar injustiças no Direito de Família, alerta juíza

Published

on

Mulher de blazer preto fala ao microfone diante de plateia sentada. Ao fundo, telão com slide sobre campanha e banner do CEMULHER - Coordenadoria Estadual da Mulher“Não existe pai herói por fazer o que é sua obrigação, nem mãe menos dedicada por trabalhar fora”. A reflexão marcou a palestra da juíza Ana Graziela Vaz de Campos Alves Corrêa, titular da 2ª Vara Especializada de Família e Sucessões de Cuiabá, durante a capacitação das Equipes Multidisciplinares das Varas Especializadas de Violência Doméstica e Familiar contra a Mulher, realizada na tarde desta quarta-feira (15) pelo Poder Judiciário de Mato Grosso.
Com o tema “Estereótipos de Gênero no Direito de Família”, a magistrada chamou a atenção para a necessidade de psicólogos, assistentes sociais e demais profissionais reconhecerem e romperem padrões culturais que ainda influenciam decisões judiciais e atendimentos às mulheres em situação de violência.
Segundo a juíza Ana Graziela, a ideia de que a mulher deve ser sempre a principal cuidadora dos filhos, enquanto o homem ocupa exclusivamente o papel de provedor, ainda provoca julgamentos que podem comprometer a imparcialidade dos processos. “A gente não pode taxar as pessoas por um estereótipo. O pai não é herói por cuidar do filho, porque isso é obrigação. Da mesma forma, a mulher não deixa de ser uma boa mãe porque trabalha o dia inteiro ou conta com uma rede de apoio para cuidar das crianças”, afirmou.
Plateia sentada assiste palestra em auditório. Ao fundo, palestrante de preto fala ao microfone diante de telão com slide e banner do CEMULHER.Atendimento sem julgamentos
Durante a palestra, a juíza explicou que esses estereótipos podem resultar em violência processual, quando preconceitos e ideias pré-concebidas interferem na forma como mulheres são ouvidas, acolhidas e avaliadas pelo sistema de Justiça.
Ela destacou que é preciso evitar perguntas e conclusões que responsabilizem a vítima pela violência sofrida ou coloquem em dúvida sua credibilidade. “Não adianta essa mulher ser vítima em casa e, quando chega ao Fórum, sofrer um outro tipo de violência praticada pelo próprio poder público. Ela precisa encontrar acolhimento, não julgamento”, comentou.
Ao abordar a evolução histórica dos direitos das mulheres, Ana Graziela lembrou que muitos padrões sociais foram construídos ao longo dos séculos e ainda se refletem nas relações familiares e nas decisões judiciais. Por isso, defendeu que magistrados e equipes técnicas utilizem o Protocolo para Julgamento com Perspectiva de Gênero do Conselho Nacional de Justiça (CNJ) como instrumento para reduzir vieses e garantir decisões mais justas.
Como mensagem final aos participantes, a magistrada reforçou que empatia e imparcialidade devem orientar a atuação de todos os profissionais que lidam com famílias e mulheres em situação de violência. “Precisamos quebrar os estereótipos de gênero. Um laudo deve ser construído sem julgamentos e baseado na realidade dos fatos. Quem trabalha com essas famílias precisa compreender o contexto em que elas vivem e atuar com empatia para evitar novas formas de violência”, concluiu.

Autor: Roberta Penha

Leia Também:  Plano de saúde deve reembolsar paciente por negar cirurgia urgente na coluna

Fotografo: Josi Dias

Departamento: Coordenadoria de Comunicação do TJMT

Email: [email protected]

Fonte: Tribunal de Justiça de MT – MT

Continuar lendo

CUIABÁ

MATO GROSSO

POLÍCIA

FAMOSOS

ESPORTES

MAIS LIDAS DA SEMANA